por Carlos Keller
Rio de Janeiro - RJ
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Há exatamente dois anos atrás, por coincidência no mesmo dia de hoje, 24/07/09, eu fotografei uma Bc. Pastoral que está plantada na casca meio solta de um tronco seco, de uma árvore morta, no mesmo quarteirão da minha casa aqui no Rio de Janeiro, em Ipanema. Embora todas as condições pareçam ser adversas para a manutenção da vida de uma orquídea, esta Pastoral continua firme e mais bela à cada ano, florindo com a precisão de um relógio. A primeira vista, o local onde a planta está instalada parece ser inóspito, mas se examinarmos com mais detalhes as suas condições, poderemos ver que os 3 pilares básicos de sustentação de um ambiente favorável ao cultivo de orquídeas estão ali presentes: luz, umidade e arejamento. Não sei até quando o substrato, que é o tronco, irá se manter de pé. Um dia ele irá tombar, pois está podre e levará com ele esta tão bela orquídea. O único cuidado que a Bc. Pastoral e mais alguns Denphal e Phalaenopsis que ali também estão plantados recebem é uma ocasional rega no verão, feita pelo porteiro do prédio em frente e feita de lonje, pois a mangueira do esguicho até ali não chega. No verão a planta sofre muito, fica amarela e regride de tamanho. É a época do sol à pino, sol forte e quentíssimo, que aqui no Rio pode chegar aos 40°C ou mais. Nessa época, o mar que está próximo é calmo e a maresia quase não atinge as plantas do outro lado da rua. Algumas noites se mostram com uma forte neblina, mas esse não é um evento regular. A Pastoral sofre, mas não morre. Fica ali esturricada, quieta, só esperando uma época melhor para voltar a vegetar. Pelo jeito, as doenças também morrem nessa época estéril, pois as folhas da Pastoral dos Denphal e dos Phalaenopsis estão limpas e sem pragas. Aos poucos vai chegando o inverno, que aqui em Ipanema é ameno, com temperaturas nunca abaixo dos 16°C e isso só de madrugada. O sol muda de posição e o seu arco gira por trás do prédio na frente do qual a Bc. Pastoral está plantada. Protegidas da forte insolação, as folhas recuperam a linda cor verde e começam a mostrar saúde. Os ventos que vêm do sul e deveriam ser nocivos, parecem não lhe trazer maiores problemas, pois eles chegam carregados de umidade e aquecidos pelas quentes águas rasas de Angra dos Reis. Dos ventos de leste, estes sim secos e muitas vezes esfriados pelas gélidas águas de Arraial do Cabo, a planta está protegida pelo edifício onde moro, um pouco mais à frente. O arejamento existe, mas ele não desidrata a planta, pois o ar que circula está saturado de umidade. A luz é forte, pois não existe vegetação acima das orquídeas, a não ser por um cacto mandacaru que não faz sombra alguma. O sol, no entanto, não é mais direto nessa época. O mar no inverno fica com ressaca e as fortes ondas elevam uma grande quantidade de umidade e maresia que atinge as plantas continuamente. Talvez os sais contidos na maresia lhe sirvam de alimento, uma espécie de adubação foliar, não sei dizer. O que posso afirmar é que até a calçada de pedra portuguesa que fica ao redor do canteiro onde estão as orquídeas, fica com um lindo musgo cerrado nos vãos das pedras e esse musgo suporta bem o pisoteio dos pedestres que usam a calçada. Sem umidade ambiente esse musgo não existiria. E assim segue a vida desta linda Bc. Pastoral, em plena calçada de Ipanema, dando à nós orquidófilos uma interessante lição de cultivo.